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A pressa da modernidade


Ainda na década de 90, quando as distâncias eram muito mais longas e o tempo parecia não passar, lembro-me de querer a todo custo que tudo acontecesse na velocidade da luz. Como se tivesse pressa para tão logo ser um adulto. Hoje percebo o quanto era tolo de desejar perder cada detalhe de tudo o que ainda posso viver.

É interessante, no entanto, que a modernidade tem exercido cada vez mais o papel de aceleradora do tempo, atropelando a todos com sua velocidade alucinante. São crianças querendo se tornar adolescentes antes da hora, e pulando etapas importantes da infância, e adolescentes performando como adultos, sufocando a sua alma juvenil e deixando para trás elementos que apenas nessa idade fazem a diferença. Não é muito difícil de perceber esse fenômeno, você precisa apenas ter uma conta em um desses novos aplicativos para celular que será possível observar.

Para além do comportamento dos usuários dessas redes, é preocupante ver a própria tecnologia se moldando a fim de modificar a forma de pensar das pessoas. Antes, vídeos que eram feitos para captar a atenção por 10, 15 ou até mesmo 30 minutos foram substituídos por frações, transformando jovens, que já vivem da pressa natural da idade, em pessoas ainda mais ansiosas e sedentas por outros vídeos de mesmo tempo. Zygmunt Bauman, famoso sociólogo, já nos alertava sobre essa sociedade líquida e seu comportamento descartável, onde tudo passaria a ser muito mais volúvel e de fácil esquecimento. Ao que tudo indica, o tempo e a paciência também.

Ainda lembrando-me da minha infância, tenho recordações belas de uma época onde essas questões não eram nem ao menos cogitadas, ainda que a minha própria característica de ansioso exercesse uma força oposta. Mesmo que quiséssemos fazer com que tudo fosse mais rápido, era quase impossível. A gente precisava ter paciência. Um exemplo muito simples, e que estes dias foi tema de conversa com meus alunos, era sobre combinações de encontros. Antes de sairmos para qualquer lugar, tínhamos que falar para as pessoas que horário estaríamos no local esperado e essa era a única garantia de que, na hora marcada, estaríamos lá. Não havia muita opção, a não ser esperar pelo outro e confiar na sua pontualidade. Quando tínhamos que realizar alguma pesquisa, decidíamos antes em que momento iríamos até a biblioteca da escola e assim escolhíamos os livros para o estudo. Ou seja, calma era a palavra da ordem.

Sabemos que essa forma de agir e pensar nunca mais voltará. A tendência é que fiquemos cada vez mais conectados e, por consequência, tenhamos nosso tempo com tudo muito mais encurtado. Então, se é dessa forma que viveremos daqui para diante, só precisamos saber gerenciar o que, dentro desse pequeno espaço que a modernidade nos oferece, faremos, a fim de que possamos realmente aproveitar nossas vidas.


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