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Com amor, veja, sinta e reflita


Alfredo Bosi uma vez disse que “O cronista é um pesquisador de momentos singulares cheios de significação”. Tive a oportunidade de ler essa frase em uma de minhas aulas do curso de Formação de escritores e, a partir dessa fala, gostaria de iniciar meu texto da semana.

Tentar observar os detalhes do nosso dia, creditando a eles momentos grandiosos, não é uma tarefa muito fácil, uma vez que somos muito acostumados a banalizar absolutamente tudo. Mas essa frase que citei de Bosi ressurgiu em minha mente nesta última segunda-feira. Deixe-me explicar melhor. Estávamos eu e meu marido retornando de um final de semana quando, ainda me ajeitando na poltrona, vi que em nossa frente havia uma família composta de três pessoas: uma mãe, um pai e um filho, de mais ou menos 11 anos. Até aí para mim não havia nenhuma novidade, afinal eles performavam o modelo atual de família. Conforme eles também foram se organizando em seus lugares, observei que os três decidiram assistir ao mesmo filme juntos, uma possibilidade que tinha para todos os passageiros, com uma mini tela grudada na parte traseira de cada poltrona. Para a minha surpresa, “Com amor, Simon” foi o filme escolhido para a trajetória de 2h que iríamos atravessar. Para quem não conhece, a história, inspirada no livro de mesmo nome, fala sobre a pressão social que um garoto, ainda na adolescência, sofre por não se assumir gay, e ter seus e-mails, trocados com outro menino da escola, sendo alvo de chantagem. Enfim, parece ser uma história boba, mas que para muitas pessoas faz muito sentido e tem muito valor.

Mas vamos ao que mais me levou a ficar impressionado pelo fato. Apesar de ser uma situação considerada normal, a escolha em si de um filme cuja temática traz algumas pautas da comunidade LGBTQIA+ não foi tão corriqueira quanto parece. Isso eu digo com tranquilidade porque nem toda família sente-se à vontade para abordar este tipo de assunto com seus filhos, assim como nem todo mundo acredita que este deveria ser um tópico a ser tratado com normalidade. Embora estejamos vivendo em um país mundialmente conhecido pela sua liberdade e cordialidade com o próximo, ainda, frequentemente, vemos na televisão casos terríveis de LGBT fobia, com pessoas sendo agredidas e violentadas muitas vezes até a morte. E ver uma família lidando com esta situação de uma forma simples e singela me chamou a atenção. A cena dos três apreciando os dilemas e as mudanças de Simon conforme a trama acontece foi muito inusitada e inesperada para mim. Achei de uma simplicidade e beleza que me remeteu novamente ao que Bosi dizia, sobre aquele momento singular cheio de significação. Talvez, para eles era apenas mais um filme, mais uma aceitação e compreensão da diversidade dos corpos. E que bom que seja assim. Para mim, era a certeza de que as mudanças na sociedade estão acontecendo.

Ao final do voo, enquanto eu mesmo, inspirado pela família também, assistia ao filme, refleti mais um pouco sobre aquela observação e sobre o impacto que ela surtiu em meu dia. Sobre as pequenas ações que acontecem ao nosso redor e que não nos permitimos experenciar. Sobre ver mais as pessoas e conseguir entendê-las a partir de seus gestos, movimentos e olhares. E, acima de tudo, sobre entendermos o quão importante é estarmos vivos para aproveitarmos cada segundo de nossas existências, sem que banalizemos os pequenos e valorosos momentos que aparecem.

1 comentário


Leonardo Pianta
Leonardo Pianta
18 de fev. de 2021

Belo texto, bela reflexão!

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