E quem escuta os professores?
- gustavorodrigues937
- 27 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Quando alguém tem uma dor de dente, o mais comum é que as pessoas recomendem a ela ir ao dentista, pois esta é a profissão adequada para essas situações. Se a pessoa está com alguma doença, seja ela qual for, ninguém questiona a autoridade do médico e de suas prescrições. Assim como ao construir um prédio, colocamos toda nossa confiança ao engenheiro responsável, pois ele estudou e se dedicou exatamente para isso. No entanto, quando falamos de educação, é impressionante como surgem inúmeros especialistas de redes sociais para dizerem o que seria melhor para as instituições de ensino, ignorando completamente a existência daqueles que realmente fazem a educação dia após dia.
Nestes últimos tempos, esta prática, de substituir estudos sérios realizados por professores por alucinações coletivas de “especialistas de internet”, tem se tornado cada vez mais comum. Na web, lugar onde as pessoas passam a ter a coragem de explanar suas opiniões, em muitos casos inválidas, todos acharam um espaço para criticar o papel da escola e, consequentemente, do professor. É bastante comum vermos usuários das redes sociais diversas falando da didática daqueles que estão nas salas de aula, diminuindo anos de experiência e pesquisa efetuados por estes profissionais. Esta redução se dá através de palpites infundados e sem qualquer tipo de profundidade, baseados em crenças pessoais e opiniões que beiram o desrespeito com os profissionais da educação. Desrespeito porque estas falas ignoram a existência de anos de estudos e dedicação dos professores. Para quem não sabe, uma faculdade de licenciatura leva, no mínimo, uns quatro anos para ser concluída, adicionando aí trabalhos, provas, estágios e TCC. Para os que decidem iniciar sua jornada nas escolas durante o período da graduação, ainda há a demanda exaustiva de turmas, correções de atividades avaliativas e toda a responsabilidade que vem com a função. Isso sem falar nos que decidem continuar seus estudos através das oportunidades de pós-graduação, acrescentando em sua experiência mais alguns anos de muito conhecimento.
Paralelamente aos inúmeros palpites de como dar aula e fazer escola, ainda somos, de tempos em tempos, ameaçados por grupos articulados que criam campanhas difamatórias contra as nossas práticas enquanto professores. É de conhecimentos de todos aqueles que acompanham as movimentações da internet, os ataques dos ditos defensores da escola. Eles tentam, através de comentários e opiniões viralizadas nas redes sociais, destruir a autonomia dos professores. O que talvez eles não saibam é da existência do Art.206 da nossa constituição, que permite a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, assim como o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino. No entanto, as pessoas que não vivem a escola e as suas inúmeras realidades jamais poderão compreender o quanto a diversidade de saberes pode ser rica para os alunos. Talvez, até saibam, e por isso, estimulam a perseguição ao professor, diminuindo seu papel na sociedade, pois entendem o quão perigoso pode ser para seus projetos uma população questionadora e instruída.
Isso significa que nós, professores, não queremos que as pessoas participem de forma ativa da escola? É claro que não. Queremos que todo mundo possa valorizar a escola de seu filho, os projetos aos quais ele faz parte e a vida escolar como um todo, mas, sobretudo, que saiba compreender e respeitar o papel do professor dentro das instituições. Que esta profissão não seja apenas como um cuidador de crianças enquanto os pais estão trabalhando. Que ela possa ser entendida como uma vista ponte para uma sociedade mais comprometida com o conhecimento, com os estudos e a sabedoria. E que esta construção possa ser feita através da escuta e apreciação correta do nosso trabalho.






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