top of page

Padecendo

Atualizado: 16 de jan. de 2021

Oi, meu nome é Gustavo Rodrigues e eu sou professor. Sim, professor, prazer. Certamente você esteja agora pensando “pobre coitado. Tão jovem e já sofrendo.” E sim, em partes. Porque ser professor é, cuidando as devidas proporções, padecer no paraíso, assim como as mães. Adicionando aí, pelo menos, uns 35 filhos juntos. Na mesma sala. Ao mesmo tempo. Lhe chamando. Gritando. E você? Surtando.

Dar aula nem sempre, no entanto, foi a primeira escolha que eu tive na vida. Já tive fases em que quis ser desenhista, outras em que eu já pensei em ser advogado (Deus me livre), jornalista (quem sabe, né?) e até mesmo já fui químico. Aliás, esta última, embora eu não tenha em nenhum momento pensado em ser, foi a única que acabou acontecendo antes do magistério. Engraçado, que o próprio magistério, também acabou simplesmente acontecendo, de forma completamente inusitada e sem planejamento. Mas como já dizem por aí, as histórias mais incríveis nas vidas das pessoas não começaram com um plano inicial e sim com um “Vamo? Vamo!”. Pois é, e assim foi comigo também.

E o começo é lindo. Nossa, é tão lindo. Você acha que irá mudar o mundo, mudar a visão de vida das pessoas, fazer com que elas acreditem em um “imagine all the people” e que a sua presença fará toda diferença, porque boa vontade é o bastante. Os estágios são sempre ótimos e a gente sempre acha inúmeros defeitos nos professores regentes das turmas, pois eles, os velhos Matusalém, que já estão ali na escola há anos virando museus, deveriam se modernizar ou, até mesmo, se aposentar, pois os alunos não os aguentam mais. E nós, os jovens descolados, devemos tirar os seus lugares e mudarmos toda uma metodologia, didática e nos transformarmos em agentes de modificação. Santa inocência.

Logo, a gente acaba se deparando com inúmeros problemas enfrentados por estas pessoas e todos os outros envolvidos neste sistema educacional. São salas sucateadas, materiais inexistentes, merendas que não chegam às escolas, professores mal pagos, comunidades inteiras esquecidas, e, por isso, acabam reproduzindo exatamente o seu esquecimento para a sociedade, como filhos desamparados e, por consequência, atrasados em seus estudos. Isso para levantar apenas o mínimo que acontece. É aí que temos o primeiro choque. A primeira visão de pavor do mundo real, que as faculdades de licenciatura, em sua grande maioria, não nos preparam.

Mas aí vem a parte boa. Porque pelo amor de tudo o que é mais sagrado, é preciso ter a parte boa. A gente começa a perceber que dar aula não está unicamente ligado aos inúmeros conteúdos programáticos que temos. Que ser professor não nos limita a entupir os estudantes de matérias que, é bem possível, serão esquecidas ao final do dia. Ser professor é, em sua essência, ser humano. É acreditar no próximo, no crescimento, na evolução dos alunos e, portanto, acreditar na evolução na humanidade. É ser essencialmente um ser utópico e esperançoso, porque não existe possibilidade do magistério sem o acreditar, sem o aceitar que há, ainda, a possibilidade de um mundo melhor. E que, mesmo colecionando inúmeros momentos de surtos e desesperos diante do que parece ser invencível, acredita fielmente em seus “quase filhos”, mesmo que o paraíso ainda esteja a alguns quilômetros de distância.


Comentários


ME ACOMPANHE NAS REDES SOCIAIS!

  • email
  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram
bottom of page