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Quantas vezes você pisca seus olhos ao dia? (ou de quando eu descobri o TOC)


Quem, assim como eu, sofre de ansiedade ou tantos outros transtornos psíquicos, certamente se identificará comigo agora. E se você, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado não compactua com absolutamente nada disso, apenas entenda que nem tudo na vida é tão fácil. Principalmente quando se trata da nossa cabeça.

Desde que me conheço por gente percebo que havia alguma coisa diferente em mim. Algo que me irritava completamente sobre a forma como as pessoas “organizavam” tudo, mas por ser criança, eu tinha total noção de que nada poderia fazer. Afinal, na década de 90, diferentemente de agora, a única coisa que podíamos opinar era se queríamos assistir à Xuxa ou à Mara Maravilha. Eu sempre optava pela primeira.

O fato é que crescendo, esse sentimento de fazer com que tudo seguisse uma determinada ordem e orientação apenas aumentou com a minha idade (jamais poderia dizer tamanho, caso contrário, não estaria lhes trazendo o verdadeiro impacto). Aos 12, quando meus pais compraram uma mesinha de centro para nossa sala e ali começaram a depositar algumas revistas, percebi que, com o tempo, aquela disposição me incomodava incontrolavelmente, fazendo com que eu quisesse ordená-las o tempo todo, mesmo quando elas já estavam devidamente empilhadas uma após a outra.

Depois disso, vieram as contagens de quantas vezes eu piscava. E não eram poucas. Eram muitas, sempre exigindo em minha própria mente, como se eu ainda tivesse o seu controle, que a última piscada chegasse a um número par. Ainda em casa, antes de fechar a porta, a chave precisava também girar pelo menos umas 4 ou 6 vezes, seguindo a mesma lógica matemática. Bom, pelo menos nessa parte da matéria eu estava craque.

A coisa foi piorando quando me vi, já nas ruas de minha cidade, não tocar em calçadas que tivessem lajotas brancas, apenas nas pretas, como se fosse uma espécie de jogo. Nele, eu precisava apenas tocar nas que fossem “confiáveis” e que não me trariam qualquer tipo de prejuízo, seja qual fosse ele de acordo com os devaneios que meu cérebro reproduzia na época.

Um tempo depois, descobri que tudo isso tinha um nome e se chamava TOC: transtorno obsessivo compulsivo. Na época, lembro-me de ter achado sua nomenclatura bem bonita e chique. Achei, inclusive, que seria aplaudido quando falasse sobre ele para os outros, mas apenas recebi um “tu só pode ser doido”. Foi então que percebi, pela primeira vez, que ser diferente, pelo menos neste aspecto, era muito ruim e comecei a tentar me livrar dessa sina. Me forcei durante muito tempo a evitar comportamentos repetitivos e que pudessem trazer à tona novamente essas três letrinhas à minha vida.

Não queria ser diferente. Queria ser igual a todos, que são normais, são legais e constituem a família tradicional brasileira. Ledo engano. Ao me tornar adulto, muitas outras diferenças começaram a aflorar. Muitas delas, possivelmente, grandes responsáveis pelo surgimento do TOC, assim como da ansiedade mais tarde. Acho que um corpinho de 12 anos talvez não estivesse preparado, naquela época, para enfrentar tantas verdades e diferenças que a sociedade ainda demonizada (acho que muita coisa infelizmente não mudou).

O fato é que hoje, após um ano de terapia, muitas coisas acabaram aparecendo. Não de forma a me amedrontar como quando eu ainda era uma criança. Mas para que eu entendesse o quão é importante o cuidado e o autoconhecimento. Não digo que, por exemplo, ainda não seja acometido pelo prazer de organizar perfeitamente uma mesa de trabalho, assim como muitos de meus alunos já conseguiram observar. Mas agora, como um adulto mais ou menos controlado, eu tenho certeza de que não preciso mais contar quantas vezes estou piscando com o intuito de talvez tentar aliviar as angústias produzidas pela minha mente.

2 comentários


Wagner Oliveira
Wagner Oliveira
15 de mai. de 2021

Eu sempre confiro se fechei o carro, e quando casei, fiquei anos tendo que conferir se passei a chave na porta. Às vezes levantando da cama mais de uma vez. Não é fácil 🤦🏻‍♂️

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Ali Sousa
Ali Sousa
15 de mai. de 2021

Texto bacana!

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