“Quantos professores negros você já teve em sua vida?”
- gustavorodrigues937
- 27 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Falar sobre este assunto que irei tratar neste texto nem sempre foi fácil. Muito deste sentimento talvez venha da sensação de impunidade e da impossibilidade de mudar de forma definitiva este aspecto da nossa sociedade. No entanto, sei da importância de debatermos sobre ele, sem que isso se mantenha um tabu, por isso decidi falar e escrever sobre o racismo.
O primeiro ponto a ser exposto aqui é sobre a questão da representatividade, afinal ser o único negro dos ambientes que frequento, sejam acadêmicos ou não, tem sido, até hoje, bastante desconfortável para mim e, acredito eu, para muitas outras pessoas que passam pela mesma situação. No entanto, existem alguns ambientes onde ser negro acaba sendo muito mais desafiador, porque eles quebram os paradigmas e as certezas absolutas que as pessoas têm sobre o que é fazer parte da negritude. Isso decorre, muito possivelmente, do racismo estrutural, que criou e ainda cria estereótipos relacionados às pessoas negras e que, por sua vez, são extremamente difíceis de serem combatidos. O Ambiente escolar é um destes. Infelizmente.
Ser professor por aproximadamente 10 anos, tem me feito observar e experimentar toda essa sensação que o racismo pode ocasionar. Durante este tempo todo, foram mais ou menos 6 escolas, muitos colegas e inúmeras turmas. Muitas mesmo. E, embora eu tenha conhecido uma quantidade absurda de pessoas este tempo todo, há algo em comum me intriga em relação a elas. A grande maioria era branca, inclusive os professores. Para que vocês tenham uma noção, a quantidade de negros se somada, adicionando professores e alunos de cada uma das escolas que trabalhei, talvez preenchesse duas mãos. O fato é que ser praticamente o único negro professor das escolas onde lecionei me remeteu a uma frase vista em uma das paredes da universidade, enquanto eu ainda era um aspirante: “E quantos professores negros você teve?”. Ao pensar sobre esta frase, percebi que em minha vida, em nenhuma das minhas etapas de escolarização, eu jamais tive qualquer contato com algum professor que não fosse branco, tanto mulheres quanto homens. Isso pensando que já faz mais ou menos uns 15 anos que saí do ensino básico e uns 6 que finalizei a minha graduação.
A questão que eu estou procurando levantar aqui é observar o quanto a não existência de pessoas negras em ambientes acadêmicos afeta em nossa formação como seres humanos. Imagine que uma geração inteira de pessoas passou por, pelo menos, 13 anos estudando em uma escola. Tendo a chance e as oportunidades certas, conseguiu ingressar na universidade e passou estudando mais uns 4 ou 5 anos nesta instituição e, no entanto, em poucos momentos de sua vida, enquanto estudante, teve contato com pessoas negras que também tiveram as mesmas oportunidades que ela. Esta mesma geração será a responsável pela ocupação de espaços de poder e conhecimento, onde tudo é organizado e elaborado. Por não terem tido grandes exemplos de pessoas negras intelectualizadas ao seu redor, este mesmo grupo de pessoas continuará perpetuando seu poder dentro da sociedade, muito provavelmente elencando unicamente pessoas com as quais elas se identificam e acreditam ver potencial, pois são seus pares. Ou seja, idênticas a elas. Bom, isso é racismo, meu povo, embora muitas pessoas acreditem que não.
Mas retornando um ponto que me cabe, a verdade é que a experiência de não ter tido nenhum professor negro durante minha escolarização e ter a certeza de que muitos outros também não tiveram, me causou, e ainda me causa, muita insegurança. Isso porque sei, através dos movimentos minuciosos da linguagem corporal e dos olhares desconfiados de um começo de diálogo, o quanto o fato de eu ser enunciado como um educador pode causar um desconforto nas pessoas. A sociedade, embora já tenha evoluído em diversos aspectos, parece ainda não estar preparada para ver um negro comandando um ambiente do saber e um espaço para a construção do conhecimento. Essa ideia, mesmo que seja corriqueira e muito normal para alguns, para outros infelizmente ainda pode parecer ser muito estranha. E como eu disse, a gente que é negro, consegue perceber essa estranheza a partir dos mínimos movimentos dos olhos e da forma como somos tratados, como se não fossemos realmente dignos de sua confiança.
Este comportamento de desconfiança das nossas capacidades, provocados pela sociedade, é claro que não afeta unicamente os professores. Ele atinge a todos os negros que, minimamente conscientes da sua condição social, se sentem automaticamente pressionados a serem, se não perfeitos, quase, procurando alcançar o seu melhor em absolutamente tudo que fazem. No mundo acadêmico é possível observar esta procura constante por uma perfeição e, por vivência própria, me incluo neste grupo. Saber que serei julgado por cada andar, por cada detalhe ou erro que poderei cometer me consome diariamente. Não digo aqui que meus colegas brancos não tenham sentimentos parecidos, no entanto, tenho certeza de que a cor deles não é o motivo pelo qual eles passam por isso. Ou seja, além de eu ter que me preocupar com o andamento da aula, com as questões relacionadas à aprendizagem de meus alunos e com o meu próprio crescimento enquanto profissional, preciso, ou pelo menos fui induzido a pensar que, tenho que ser incrivelmente bom no que estou fazendo, uma vez que serei não apenas julgado por aquilo que sei, mas por aquilo que está além das minhas condições de mudança. É óbvio que não há psicológico que aguente.
O que me conforta diante desta realidade, é ver que algumas coisas já estão mudando, mesmo que a passos de formiga. Negros e negras já estão conseguindo ingressar nas universidades através de programas de ações afirmativas, adicionando ao mercado de trabalho pessoas cada vez mais capacitadas e prontas para enfrentarem esta sociedade de uma forma diferente de seus antepassados. Além disso, percebe-se nitidamente que, embora de forma tímida, há também um certo movimento midiático preparado para algumas mudanças vindas das pressões sociais por uma representatividade que modifique o status quo das instituições que, ainda, promovem o racismo. Ok, pode ser que eu esteja sendo muito esperançoso e que os próximos passos venham de forma muito devagar, fazendo com que ainda tenhamos que encarar o racismo por um bom tempo. Mas a verdade é que a esperança faz parte do que eu sou enquanto educador, e almejar uma sociedade onde não tenhamos mais que perguntar as pessoas quantos professores negros elas tiveram na vida é uma forma de querer construir um ambiente onde ninguém mais precise se deparar com olhares desconfiados ou com a insegurança constante do próprio erro.






Disse tudo!!