Sobre (des)valorização
- gustavorodrigues937
- 27 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Sabe quando você é pequeno e as pessoas lhe perguntam “o que você quer ser quando crescer” e você responde “professor (a)” e surge automaticamente uma expressão de tristeza no rosto dos adultos ao ser redor? Bom, naquela época talvez fossemos muito pequenos para compreendê-la. Hoje, sabemos o porquê.
A maioria das pessoas acredita que quando decidimos fazer licenciatura na faculdade, estamos completamente condicionados a aceitar determinadas situações que, infelizmente, vem se tornando realidades imutáveis. Uma delas é sobre o salário do professor. Independentemente da disciplina que você dará aula, estará ali taxado, na maior parte das vezes, um salário muito abaixo da média de outras profissões de cursos da universidade que formam alunos já preparados para uma remuneração de qualidade. No caso das licenciaturas, eu acredito que ainda seja muito pior, porque crescemos com os estigma de que professores são mal pagos, trabalham demais e são pouco valorizados. Não que estas informações sejam todas erradas, pelo contrário. Acredito que elas são baseadas na realidade que vemos e, muitos de nós, antes mesmo de adentrarmos nesta profissão, vivenciamos com nossas mães ou pais em nossas próprias casas.
É daí que, na maioria das vezes, decorrem os preconceitos. Foi assim comigo e acredito que tenha sido com muitos de vocês, professores leitores deste texto. Nossos familiares são os primeiros a dizerem que não deveríamos cursar nenhuma licenciatura. Frases ao estilo, “Como assim? Quer passar fome?”, “ Vai viver de quê? De sonho?” “Olha, pobre coitado. Vai demorar anos para ter as coisas na vida”. E por aí vai. Estas são apenas algumas das frases mais ditas a nós quando decidimos que queremos trilhar este caminho. O descrédito em relação a essa profissão é carregado de geração em geração. Não é incomum, por exemplo, escutarmos nas escolas onde trabalhamos, alunos dizendo que jamais seriam professores, pois além de serem desvalorizados, seus pais nunca permitiriam que fizessem um curso que os pagaria tão mal futuramente. Sociedade em colapso e descrença é como chamamos isso? Talvez, mas eles não deixam de estar certos.
A gente também não pode acreditar, é claro, que absolutamente todos os professores brasileiros atravessam esta realidade. Sabemos que existem lugares no Brasil (neste caso alguns municípios e até mesmo estados) que valorizam os seus profissionais da educação, assim como também há muitas escolas privadas de qualidade e instituições de ensino sérias que têm um olhar diferenciado para aqueles que estão ali, batalhando dia após dia, procurando trazer o seu melhor para a sala de aula. No entanto, a verdade é que a grande maioria não está sob estas condições.
Infelizmente, nossa profissão ainda é uma das que menos nos traz um retorno financeiro se comparado com outras do mercado e com o tempo de preparo que se tem para a sua formação. É ainda uma das profissões cuja valorização continua sendo mínima, sem falar no respeito social, que só é lembrado no dia 15 de outubro, quando as pessoas acreditam que uma musiquinha, um bilhete e algumas pequenas homenagens aqui e ali irão fazer alguma diferença em nossa vida profissional. Além disso, é bem evidente que, pelo menos na realidade brasileira, a manutenção do status quo do professor, como o personagem heróico que faz de tudo para garantir algum ensino para a população pobre brasileira, é produtiva. Assim, cria-se o mito de que nós não precisamos ser bem remunerados, afinal, estamos fazendo tudo por amor.
Pensando nisso tudo, temos escolhas? Temos. Talvez possamos mudar de profissão, e é bem possível que, no primeiro momento, nossos problemas, fossem eles de qualquer ordem, diminuiriam. Queremos? É bem provável que não (digo por mim). Mas então por que reclamamos destas condições, se elas já estão postas? Porque embora saibamos o que já está aí, também entendemos que nada nessa vida é permanente ou deve ser para sempre. Além disso, temos a certeza de que a mudança é necessária e de que acima de tudo, precisamos ser valorizados.






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