Sobre textos, livros e um mestrado não atingido
- gustavorodrigues937
- 27 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Muito provavelmente, vocês devem estar pensando que na semana em que eu tenho o lançamento do meu primeiro livro, eu iria fazer uma crônica exatamente sobre isso, ou sobre algo que destilasse felicidade. No entanto, embora eu esteja muito contente por esta conquista, ainda amargo em meu interior o resultado negativo de uma tentativa de entrada no mundo acadêmico que me foi dado dias antes do meu debut na literatura.
Espero que vocês, meus leitores, não me levem a mal. Este texto não é sobre vitimismo ou sobre a procura de transformar a frustração em um muro de lamentações. Não é sobre a minha incapacidade de ter sido aprovado, neste momento, no processo seletivo para o mestrado, mas sobre o impedimento histórico de um crescimento que, mesmo eu não querendo, e muitas vezes rejeitando, me obrigo a carregar em minhas costas. Na verdade, este texto fala muito mais sobre uma ancestralidade que insiste em falar comigo o tempo todo, e que desencadeará uma reatividade constante, do que unicamente sobre o passar ou não passar em uma seleção. Não entenderam ainda? Bom, então deixa eu me explicar um pouco mais. É fato que vivemos em um país extremamente racista. O Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão e os efeitos de suas práticas diárias, como elaboração de leis para impedir o crescimento e o desenvolvimento da população negra afetam até hoje o nosso bem estar, seja ele físico ou mental. Vivemos em uma constante auto vigia, acreditando que a qualquer momento seremos sabotados, retirados de nossas próprias vidas, ou desacreditados pelo único fato de sermos pessoas negras. Aos que ainda não acreditam, é só perguntar a qualquer amigo ou amiga preta (caso vocês tenham) como foi sua criação. Perguntem se enquanto ele crescia, seus pais não lhe diziam que ele, enquanto negro, deveria ser sempre muito melhor do que as pessoas brancas, pois nós, por conta de nossa pele, já começamos em desvantagem. Perguntem se a ideia da perfeição não o assombrou o tempo todo desde a infância, porque é assim que somos educados. A nossa educação é pautada na sobrevivência em função de uma excelência que nos é imposta por conta do racismo que insiste em nos condenar como fracos, preguiçosos e até mesmo como menos capazes intelectualmente.
Assim, meus amigos, a gente vai crescendo e vai internalizando cada vez mais esta ideia, de que precisamos estar sempre a frente de tudo, de que precisamos ser muito bons no que fazemos, pois sabemos que a qualquer momento, no menor deslize, somos substituídos. Viver sob a possibilidade de ser subestimado o tempo todo dói. E dói tanto que a gente pensa em desistir, em de vez em quando ser fracos apenas, mesmo que isso não nos seja permitido. No começo deste ano caótico, lembro-me de ter visto uma cena da novela “Amor de mãe” em que a personagem Camila, professora negra, moradora de periferia, fala com sua mãe lhe dizendo que ela estava cansada. Cansada de estar sempre atenta a tudo, de estar sempre lutando e de ter que ser duplamente mais forte do que os outros, pois a vida nunca lhe reservava a parcela mais fácil. Embora sejam contextos diferentes e de, inclusive, eu saber que a mulher negra sofre ainda mais que o homem negro dentro da nossa sociedade, eu me identifiquei completamente com ela, pois é desta mesma maneira que venho me sentindo. A gente se cobra tanto que nossos corpos, fisicamente e psicologicamente, não aguentam mais. E pior. Em algumas situações, a gente fica tão confuso com essa história toda, que ou nos auto sabotamos, não nos permitindo enfrentar os desafios, ou ainda remoemos por muito tempo os insucessos, sem conseguirmos identificar se o resultado foi por falta de preparação nossa ou por algum motivo racial mesmo. Aqui chego ao meu ponto alvo, no caso, a minha seleção de mestrado. A questão, antes que vocês já tirem conclusões precipitadas, não está em eu dizer que tenha acontecido racismo durante o processo seletivo. Não é sobre isso, inclusive acredito que a seleção tenha sido muita clara e honesta. O problema é que o contexto ao qual eu fui submetido a minha vida inteira, sendo uma pessoa negra e, possivelmente, o único deste processo, fez com que eu automaticamente me colocasse em uma posição de inferioridade, ao mesmo tempo em que eu dizia para mim mesmo que eu deveria ser um dos melhores. Vocês conseguem entender, a partir disso, o problema que o racismo nos causa?
Bom, enquanto essa sensação de derrota não se dissipa (e eu tenho certeza de que ela algum momento vai embora), vou enfrentando as outras batalhas do dia a dia, vou escrevendo, me fortalecendo na terapia e tentando viver a minha vida de forma que o racismo não seja a pauta principal. É difícil? Bastante. Muitos de vocês não fazem nem ideia. Mas ainda bem que tenho bons aliados ao meu lado, que me ajudam e me protegem.
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